Helena Coelho + Univox GR // Relato de Prova_Rocky Mountain Games
Parte 1 - Pré-Prova:
"Duas semanas antes da prova, minha cabeça virou do avesso, recebi uma notícia no trabalho que me tirou o chão. Depois de dois anos e meio, muitas entregas (de alma e corpo), iniciava o encerramento de um ciclo.
O que seria o fim de um mês de preparação, tentando manter uma carga de treinos mínima, virou a luta para sobreviver e manter uma carga mental mínima. Quis desistir de largar, achei que me propor a fazer força física não seria justo para a cabeça. Mas me comprometi a ir para a linha de largada e trabalhei isso de forma generosa com a minha cabeça, como tenho aprendido nos últimos anos que comecei a competir. Eu me cobro demais e essa é uma característica muito pessoal (e muitas vezes muito dura comigo mesma).
Deixei tudo pra cima da hora, fui mexer na bike na quinta-feira, véspera da prova. O plano era trocar pneu (colocar mais cravos), repor selante, trocar pedal (colocar um com sistema que não gruda lama, mas com plataforma maior), trocar pastilha. Acordei cedo na quinta para organizar tudo isso: não consegui talonar sozinha um pneu, o parafuso da pastilha não rodava (por nada no mundo!) e não tinha ferramenta para trocar o pedal. Tinha feito exatamente tudo errado: não reservei horário na S2 Moema e deixei tudo pra cima da hora. Um amigo, o Luis, me salvou na quinta de noite e arrumamos tudo. Ufa.
Sexta de manhã, um dos pneus estava no chão. Enchi e mentalizei “vai dar certo, vai selar”. Vozes da minha cabeça e uma convicção voraz disseram que ia dar certo. Logo pensei: é a válvula, que eu já deveria ter trocado há muitos meses, vou apertar e vai dar certo. Sexta de noite: pneu vazio, encho de novo. Sábado de manhã: mesma coisa. Encher e ver se a “mágica” acontecia. Não teve jeito.
Saímos sábado bem cedo para chegar com calma, aquecer bem. Fomos tranquilos, paramos na padaria. Quando olhei o pneu: vazio de novo. Minutos depois encontrei o Thiago e o Cesinha, da S2 Moema, e pensei “opa, a sorte está comigo, meu mecânico está na prova”. Cesinha passou por nós quando estávamos parados estacionados para sair de bike pedalando até a arena, parou e tentou ajudar, apertamos a válvula mais uma vez. Consegui chegar na arena mas o pneu estava super baixo. A prova é super bem organizada, quase todas as edições costumam ter oficina mecânica neutra, cheguei e fui super bem atendida pela Oficina do Areias, já tinha uma válvula reserva pra trocar, completaram selante, verificaram tudo e deixaram a bike pronta para competir. Ufa!

Parte 2 - Dia D:
Com tempo sobrando fui aquecer, não gosto de me desconcentrar no começo da prova e perder o foco, também gosto de largar atrás e estourar no começo ou ir buscando as adversárias. É uma característica minha. Fui para a prova com alguns objetivos: o primeiro era dar tudo de mim, entregar o máximo que o meu coração aguentaria manter, o segundo era ser generosa com o processo que eu estou vivendo. Fora de forma, destreinada e com 10kg a mais que em 2024, o auge dos meus treinos e performance.
Larguei como um foguete e rapidamente alcancei o pelotão da frente dos homens. O coração estava mantendo 185, estava forte demais, isso não era sustentável a médio prazo. Cometi um erro: não vi o briefing técnico. A minha cabeça projetou o percurso de 2024: que a largada era no asfalto, então sair forte era fundamental para segurar roda em alguns kms e abrir vantagem. Mas saímos na terra e rapidamente trilhas e subidas: contra a gravidade, não há milagre. Aos poucos fui sendo ultrapassada, uma por uma. Com sorriso no rosto, eu seguia meu ritmo.
Ficar sozinha e manter um ritmo alto já ocupando o 4º lugar, começou a me incomodar e minha cabeça começou a ficar fraca. Não vou alcançar, por mais que visse a pessoa que estava em 3º algumas vezes. Não fiz força o suficiente e muito menos tive foco para ir buscar. Não me cobrei. E segui. A Paula apareceu no horizonte, eu gritei “vem que você me alcança”. Pedalamos alguns minutos (ou horas?) juntas, conversamos no caminho e aquilo me fez bem, estávamos fazendo força, em uma prova, mas minha cabeça estava a ponto de colapsar ali. Foi necessário esse tempo.
Eu sabia qual era meu potencial treinada, eu não sabia como estaria de lama o percurso, o que fez com que eu empurrasse alguns trechos que eu não empurraria normalmente. O dia estava simplesmente maravilhoso, sol, temperatura (embora estivesse um pouco quente pelo horário, não estava insuportável). O percurso de mata atlântica e trilhas fechadas, com uma lagoa no meio, é belíssimo, sem dúvida minha etapa preferida. Nas descidas eu acabava reduzindo para esperar a Paula, que me alcançava nas subidas e fomos assim um tempo. Até que eu segui em uma descida e ela não me alcançou depois.
Estava mantendo os batimentos na casa de 165-175, estava calor, cuidando da suplementação, de sal. Bom, fazia mais de um ano (e meio talvez) que eu não largava, mas a experiência e bagagem do que fazer ficam com a gente. Por mais que eu explodisse o coração, as pernas não responderam.
Meu tempo em 2024 foi de 2h27min, em 2026 foi de 3h52 minutos. Subi no pódio, fiquei em 4º lugar. Voltei, entreguei o melhor de mim, sem me cobrar além das minhas condições de entregas. Provas curtas, rápidas e explosivas sempre foram meu maior obstáculo. Começamos oficialmente a temporada de 2026. A meta desse ano é o Across Andes, fim de novembro, e vamos seguir trabalhando para isso. Acompanhem por aqui.
Bons treinos, nos vemos na estrada."
. 
Helena Coelho.
Ultraciclista, gravel e road. Advogada, trabalha na liderança de projetos de mobilidade urbana, embaixadora da Swift, S2 Moema e House Whey. Apoio: Vix Ciclismo e Cliff.
https://www.instagram.com/helena.ccoelho/


Braba demais!!!! Só orgulho e admiração!
Adoro te ler, Helena! Além de uma grande ciclista e mulher, é tbm uma ótima cronista! Não pare nunca.
Parabéns menina guerreira, seja bem vinda de volta às competições!
Divirta-se acima de tudo.
Nos vemos pelas estradas de gravel em 2026.
Grande bj
Alex Vieira CXC
Que relato incrível de experiência de vida .Digo vida porque a bicicleta, há algum tempo, faz parte do seu ser existencial.
Parabéns Helena por nos ensinar nas pequenas e grandes coisas.
Você é Gigante.