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Geometria e pilotagem: o que deixa o quadro da MTB mais propício para descidas ou subidas?

A diferença entre bicicletas de downhill, enduro, cross-country ou gravel vai muito além do tamanho das suspensões e pneus de cada uma delas.

É comum iniciantes acreditarem que a diferença entre bicicletas de downhill, enduro, cross-country ou gravel está apenas no tamanho das suspensões e pneus de cada uma delas. Grande erro.

Como muitos sabem, a maior diferença de todas está no quadro de cada uma das bikes.

Os aspectos de sua geometria é que vão definir se a bicicleta é propícia para cada uma das modalidades. Me refiro ao tamanho de cada um dos tubos e os ângulos em que eles se encontram. Essas medidas definem a geometria da bicicleta, que é o cerne de suas características de pilotagem.

 

É bem provável que você já tenha visto uma tabela de geometria de uma bicicleta, onde todas as dimensões de ângulos e medidas dos tubos são definidos.
Nenhuma dessas medidas é menos importante, mas algumas referências são as favoritas na hora de definir a modalidade de uma bicicleta, ou seja, se vai ser enduro, downhill ou cross-country.
As minhas medidas favoritas são: Ângulo de caixa de direção (D) e Chainstay (F).

Ângulo de caixa de direção

Percebam que o tubo da caixa da direção é o que vai definir qual é o ângulo que a suspensão vai ter para absorver os impactos da roda com o solo. Se a suspensão fica em uma posição mais inclinada, vai existir uma segurança muito boa na pilotagem dessa bike, principalmente em trechos de descidas íngremes.

Se a suspensão ficar em uma posição mais reta, ela terá uma característica de pilotagem mais arisca, ou seja, com um pouco mais de agilidade para alta velocidade e arrancadas, porém, com menos segurança e controle para trechos técnicos e descidas íngremes, correndo o risco de acontecer aquele famoso tombo virando de frente.

A medida do ângulo da caixa de direção de uma bicicleta é definido pela indicação D no diagrama acima. Quanto menor for essa medida, mais “inclinada” estará a suspensão e terá melhores características de pilotagem técnica. À medida que este número aumenta, a suspensão fica mais “reta” em relação ao solo, e adota as características de bike mais veloz e arisca.

Para termos referência, vamos pontuar aqui alguns modelos de bikes da Sense, quais são as modalidades que elas abrangem e qual é a medida da caixa de direção de cada uma delas:

 

Sense Hardcore:

Modalidade: All Mountain

Ângulo de caixa de direção: 65º

A Hardcore é a bike da Sense que tem o menor ângulo de caixa de direção, ou seja, tem a suspensão mais inclinada em relação ao solo e proporciona uma segurança excelente em descidas íngremes. Como não tem uma suspensão traseira, o ângulo de caixa de direção garante que ela seja uma típica All Mountain, promovendo total segurança para o conjunto.

 

Sense Exalt LT Factory

Modalidade: All Mountain

Ângulo de caixa de direção: 65,5º

A Exalt possui meio grau a mais na medida que estamos discutindo, o que é pouco, mas já faz uma diferença grande. Acontece que, diferente da Hardcore, essa bike possui uma suspensão traseira, o que vai compensar essa diferença, partindo do princípio de que quando o amortecedor traseiro estiver comprimido, essa medida ficará ainda maior – solução que não existe para uma bike rígida como é a Hardcore.

 

Sense Invictus Carbon

Modalidade: MTB XC

Ângulo de caixa de direção: 67º

Por ser uma bike feita para o XC, o ângulo da caixa de direção já aumenta para 67º. Isto quer dizer que esta será uma bike mais veloz e mais ágil se comparada com os modelos anteriores, que são para terrenos mais acidentados. Obviamente, a pilotagem aqui será um pouco mais arisca, se adequando aos obstáculos propostos para uma pista de Cross Country.

Pilotos dessa modalidade não podem utilizar ângulos de caixa de direção baixos e parecidos com as bikes de enduro, pois ficarão lentos em subidas e arrancadas. Da mesma forma, não podem aumentar demais esse número, pois perderiam segurança nos obstáculos das pistas de Cross Country. O meio termo é a receita ideal aqui.

 

Sense Fun

Modalidade: MTB Recreativo

Ângulo de caixa de direção: 69,5º

A Sense Fun não tem uma proposta de alta performance e nem de transposição de grandes obstáculos. O MTB recreativo é aquele que você vai pedalar com os amigos, desbravar estradas de terra, utilizar a bike em diversas situações, inclusive no asfalto como se fosse uma bike urbana (por que não?)

Sua medida de ângulo de caixa de direção é de 69,5 graus, evitando que seja uma bike lenta em arrancadas e preservando a força do piloto amador, ainda permitindo que ele tenha uma excelente segurança nas trilhas.

Este é um ótimo exemplo de por que devemos observar as medidas de geometria. Basta comparar a Fun com as outras bikes de entrada existentes no mercado e você vai ver que ela é uma das que vai entregar a melhor segurança de pilotagem, ou seja, possui um dos menores ângulos de caixa de direção entre as bikes de entrada do mercado. Em outras palavras, é uma bike de entrada que preza pela segurança e conforto na pilotagem.

 

Sense Versa

Modalidade: Gravel

Ângulo de caixa de direção: 70º a 73º (a depender do tamanho do quadro).

 

Para a proposta do gravel fica visível como a inclinação do garfo fica bem mais reta em relação ao solo. Aqui não existe mais suspensão, afinal, não existem grandes obstáculos como nos eventos de XC e Enduro. A proposta é de uma bicicleta que consiga ser bem veloz, precisando lidar com terrenos acidentados somente. Naturalmente, é uma medida bem parecida com as road bikes, que ficam ainda maiores para ganharem mais agilidade.

Para concluirmos o nosso estudo, fica bem claro que o ângulo da caixa de direção muda substancialmente de acordo com a modalidade escolhida.

À medida que uma bike se propõe ser mais veloz, este numero aumenta. À medida que a bike se propõe a cumprir disciplinas de gravidade e transposição de obstáculos, o ângulo da caixa de direção diminui.

E pensar que seria legal ter uma Gravel com a mesma medida de uma bike de enduro beira a insanidade, pois estaríamos literalmente mudando a categoria daquela bicicleta – ou impondo características que ela jamais utilizaria.

Assim como a bike de enduro não poderia ter um ângulo maior, pois se transformaria em uma Gravel e perderia todas as suas habilidades de fazer aquilo que lhe é proposto em sua modalidade.

 

Chainstay

A tradução ao pé da letra seria “tubo da corrente”, mas dizemos ‘tubo inferior traseiro’.

O Chainstay é a medida que vai do eixo da roda traseira até o eixo do pedivela da bicicleta.

 

Como o próprio nome já diz, este é o tubo da corrente, logo podemos perceber que ele é abraçado pela parte mais complexa da bicicleta, que é a relação. Qualquer erro de medida ou posicionamento deste tubo pode ocasionar um problema crônico de desalinhamento da coroa, cassete e corrente. O alinhamento destas peças é conhecido pelo termo “chainline”. Um Chainline incorreto faz com que as marchas da bicicleta fiquem totalmente desreguladas.

Mas o mais importante para escolher uma bicicleta, dentro das várias modalidades existentes, é o tamanho do chainstay, pois ele tem atuação primordial em como a bicicleta vai se comportar durante a pilotagem.

O grande segredo dessa medida é que, quanto mais curta ela for, mais a roda traseira estará posicionada “dentro” da bicicleta. Desta forma, com um chainstay curto a roda traseira ficará bem próxima do piloto, concordam?

Por outro lado, um chainstay longo terá tubos mais propensos a torção, que reduzem a vibração e micro-impactos. E a roda traseira ficará posicionada mais distante do ciclista e da bicicleta, aumentando inclusive uma outra distância muito importante, que é o “entre-eixos” da bicicleta.

Vamos comparar algumas bikes de diversas modalides e as suas medidas de Chainstay:

 

Sense Invictus – Chainstay 438 mm

 A Invictus é a MTB full suspension para XCO e XCM da Sense. A marca escolheu uma medida de chainstay, que não é a menor do mercado, mas está entre as menores. Isso quer dizer que, dentro da modalidade elegida (XC full suspension) essa bike aborda um meio termo para estar entre as mais velozes, mas ainda com uma margem legal para ter conforto e segurança mínimos, afinal, uma MTB não pode ter todo o foco em agilidade e ficar com cara de contra-relógio, concordam? Vamos aos próximos modelos:

 

Impact Carbon – Chainstay 435 mm

 

A Impact também é desenhada para a mesma modalidade da Invictus, porém, não leva uma suspensão traseira. Isso permite que ela tenha mais espaço para encaixar a roda traseira um pouco mais próxima do conjunto, dando a ela uma das características mais marcantes de uma hardtail quando comparada com as full suspension: rigidez e agilidade. Estes 3mm a menos fazem sim bastante diferença e servem como ponto crucial na hora de os pilotos de XC escolherem entre uma full e uma rígida.

 

Rock Evo – Chainstay 445mm

Aqui a modalidade é o MTB recreativo. Não existe necessidade de uma bike arisca e que faz curva super radicais, mas sim de segurança e conforto. Por isso, o chainstay com 10 mm a mais do que a Impact muda completamente a condução da bike. Essa medida vai fazer com que essa bike tenha menos rigidez e mais absorção de impactos. Essa diferença entre as bikes nos mostra a importante a reflexão de que uma bike competitiva (e naturalmente mais cara) nas mãos de um amador, pode ser uma escolha ruim. Se o seu intuito é o MTB recreativo, analise bem as medidas da geometria da bike que você vai comprar!

 

Exalt – Chainstay 439mm

 Aqui mudamos para o mundo do enduro. Essa é a bike trail full suspension da Sense. Ela não precisa de arrancadas da rápidas, mas se tiver é bom. Ela precisa de agilidade em curvas, por isso o chainstay curto é algo muito desejado, mas sempre desafiador para os engenheiros, pois precisam lidar com uma suspensão traseira que tem um curso de movimentação de aproximadamente 150 mm. Essa é uma das menores medidas do mercado, se comparada com o que outras marcas abordam para a mesma categoria de bicicletas. Logo, a Exalt é uma bike que tem uma desenvoltura muito boa em curvas e boa arrancada.

 

Hardcore – Chainstay 430 mm

 

Esse é um dos Chainstays mais curtos da categoria MTB aro 29. Como essa bike tem um ângulo de caixa de direção muito aberto e 150 mm de suspensão dianteira, mesmo sendo uma bike rígida ela tem performance incrível na modalidade trail/enduro.

Essa configuração de chainstay é o grande segredo da bicicleta, fazendo com que o piloto esteja praticamente em cima da roda traseira, com controle total da bicicleta. O “problema” de rigidez e impactos criados por um chainstay tão curto é resolvido em partes pelo uso de um canote retrátil e condução do piloto.

Essa bicicleta vai apresentar uma retomada de aceleração fantástica, incomparável com outras MTBs. Obviamente, perde em conforto quando comparada com uma full suspension que, naturalmente, possui o chainstay mais longo.

A proposta da Hardcore é justamente essa: agilidade total nas trilhas, passando por tudo.

 

HardPump – Chainstay 385

 

Por último, esse belíssimo lançamento para a modalidade pump track. É o chainstay mais curto que mencionamos aqui, mesmo se comparado com uma bike de Triathlon e contra relógio do mundo road.

Isso é possível por que essa bike utiliza aros 26, menores do que qualquer uma das bikes citadas aqui. O motivo de usar aro 26 não é para baratear o projeto ou por utilização de tendências passadas, mas por quê a modalidade Pump Track é a que mais precisa de agilidade, rigidez e boas arrancadas, afinal, a bicicleta precisa sair do chão e voar! O aro 26 entrega tudo isso!

Para conseguir uma medida mínima no chainstay dessa bicicleta, o seu projeto contemplou a substituição de tubos por peças metálicas maciças, deixando um espaço maior para a roda traseira, aumentando a resistência e claro, rigidez.

Entenderam como cada modalidade tem suas particularidades moldadas a partir das medidas de geometria? Entenderam que o conceito de uma marca não vem do pneu ou câmbio que a equipa, mas das medidas que ela decide abordar para cada uma das modalidades, tornando mais ou menos marcantes cada uma de suas características de pilotagem?

Este é ponto que precisamos aprender para discutir qual marca nos agrada mais, qual mais combina com o nosso estilo de pilotagem e qual delas escolheu o meio termo legal para a gente ter a pilotagem mais agradável.

 

E por último, temos que nos atentar a estes números quando estamos em dúvida de qual é a bicicleta que queremos comprar. Dois modelos que concorrem entre si no mercado podem apresentar medidas bem diferentes – que agora você já sabe avaliar qual vai te atender.

E tudo isso vem bem antes de ficar pensando em qual pneu ou câmbio vêm de fábrica, afinal, pneu tem jeito de dar upgrade, câmbio também, assim como cada acessório pode entrar na negociação e ser trocado. Mas a geometria de uma bicicleta, essa vai durar para sempre.

8 comments on Geometria e pilotagem: o que deixa o quadro da MTB mais propício para descidas ou subidas?
  • Germano Santos
    Germano Santos May 16, 2024

    Uau!
    Aprendi muito sobre minha bike, em um pouco tempo de leitura, show

  • Márcio Pontes De Albuquerque
    Márcio Pontes De Albuquerque May 15, 2024

    Pelas medidas geométricas da Sense urban impulse, qual a categoria ela se enquadra? Considerando a suspensão dianteira dela?

  • Márcio Pontes De Albuquerque
    Márcio Pontes De Albuquerque May 15, 2024

    Pelas medidas geométricas da Sense urban impulse, qual a categoria ela se enquadra? Considerando a suspensão dianteira dela?

  • Alexandre Teixeira
    Alexandre TeixeiraMay 15, 2024

    O melhor artigo técnico sobre geometria de bike que já li, parabéns!

  • Alan Faria
    Alan Faria May 15, 2024

    Uau! Estão de parabéns nesta explicação!
    Possuo uma Sense Carbon e estou muito feliz com ela

  • 1 2 Next »
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