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Café, pedal e destino: onde recarregar as energias sobre duas rodas em SP, MG e ES

Existe uma relação muito particular entre bicicleta e café. Depois de algumas horas pedalando, a parada deixa de ser apenas uma pausa para tomar alguma coisa e passa a fazer parte do próprio percurso. É o momento de tirar o capacete, encostar a bicicleta, conversar um pouco e observar o lugar onde se chegou. Em pedais mais longos, principalmente, essas pequenas paradas ajudam a organizar o ritmo do dia e também permitem conhecer lugares que provavelmente passariam despercebidos em uma viagem de carro.

Para mim, o café também acabou se tornando uma forma de conhecer melhor os lugares por onde pedalo. Algumas rotas começam com um destino definido, outras surgem de uma vontade de experimentar uma estrada diferente e descobrir até onde ela leva. Em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, tenho registros de pedais em que o café, a comida ou simplesmente um lugar para sentar fizeram parte do percurso. Para celebrar o Dia Mundial Sem Carro, reuni alguns deles, não como um guia de cafeterias, mas como uma seleção de caminhos que gosto de fazer e que podem servir de inspiração para quem também gosta de combinar bicicleta, estrada e uma boa parada.

São Paulo: pedalar para além da cidade

Pedalar em São Paulo é interessante justamente pela possibilidade de mudar completamente de cenário sem precisar percorrer uma distância tão grande. É possível começar o dia no ambiente urbano, atravessar regiões bastante movimentadas e, pouco a pouco, encontrar estradas, áreas de serra, bairros mais afastados e caminhos que dão outra dimensão à região metropolitana. É uma característica que gosto bastante nos meus pedais por aqui, principalmente quando a intenção não é apenas cumprir um treino, mas construir uma rota que tenha um destino.

Um exemplo é o percurso registrado no Strava como “Cafezinho ride / 1922”, em que o café aparece como parte do roteiro. Outro é o pedal “St ines-concremix-cafezinho na roseira”, que também mostra essa maneira de organizar o percurso a partir de uma parada. São rotas diferentes, mas têm em comum a possibilidade de transformar um treino em uma pequena saída pela região. Em vez de simplesmente definir distância e altimetria, existe um lugar para chegar, uma parada para fazer e um motivo para continuar pedalando depois dela.

Gosto especialmente dessa possibilidade em São Paulo porque a bicicleta permite perceber mudanças muito rápidas na paisagem. Uma mesma manhã pode começar com trânsito e semáforos e terminar em uma estrada mais tranquila, com a sensação de que estamos muito mais longe da cidade do que realmente estamos. Dependendo da rota, o café pode ser uma parada curta antes de voltar ou o ponto central do passeio. O mais interessante é que os dois pedais mostram como é possível encontrar esses pequenos destinos sem necessariamente transformar o dia em uma grande viagem.

Rotas no Strava:
Cafezinho ride / 1922
St ines-concremix-cafezinho na roseira

Minas Gerais: café, subida e estrada

Quem pedala por Minas Gerais aprende rapidamente a prestar atenção na altimetria. Em Belo Horizonte e nos arredores, as subidas fazem parte do percurso e muitas vezes determinam o ritmo do dia. Ao mesmo tempo, é justamente essa combinação de cidade, montanhas e estradas que torna a região tão interessante para quem está de bicicleta. É possível sair de Belo Horizonte e, em pouco tempo, estar em um cenário completamente diferente, principalmente nas rotas em direção a Nova Lima e Macacos.

Um dos pedais que guardo desse período está registrado no Strava como “BH, Nova Lima e Macacos, asfalto + terra”. O percurso combina diferentes tipos de terreno e mostra uma das características que mais gosto de encontrar em uma rota: a possibilidade de mudar de ambiente sem que o passeio perca continuidade. Macacos também funciona muito bem como destino para esse tipo de pedal, porque permite sair da cidade, enfrentar as subidas e chegar a um lugar onde é possível fazer uma pausa antes de retornar.

E existe uma relação quase inevitável entre Minas Gerais e café. Nesse tipo de pedal, a parada acaba tendo uma função que vai além de recuperar energia. É uma oportunidade para comer alguma coisa, conversar e deixar a bicicleta descansando enquanto o corpo também desacelera um pouco. Dependendo da distância e da intensidade do treino, alguns minutos podem ser suficientes para reorganizar o ritmo e seguir viagem. Para quem gosta de pedalar sem transformar tudo em uma competição contra o relógio, esse intervalo também faz parte da experiência.

Rota no Strava:
BH, Nova Lima e Macacos, asfalto + terra

Espírito Santo: da capital em direção às montanhas

No Espírito Santo, a experiência muda bastante. Vitória e sua região permitem pedais com características litorâneas, mas também oferecem acesso relativamente rápido às montanhas. Para quem está disposto a enfrentar mais quilômetros e altimetria, Domingos Martins e Pedra Azul são destinos que tornam o percurso mais interessante. É uma região que conheço também de outras perspectivas, inclusive pela estrada entre Belo Horizonte e Vitória, que fiz de bicicleta em uma viagem de 570 quilômetros dividida em seis dias. Pedalar por uma estrada que eu já conhecia de carro mudou completamente a maneira como percebi o caminho.

Tenho também alguns registros de pedais mais antigos que ficaram associados a essa relação entre bicicleta e café. Um deles é o “Café no antigo Expresso 37”, uma referência que faz sentido dentro daquele momento, mas que hoje pode ser atualizada para quem quiser repetir a ideia. Em vez de fazer exatamente o mesmo roteiro, eu seguiria um pouco mais e colocaria Domingos Martins ou Pedra Azul como destino. Para quem está procurando um pedal mais exigente, Pedra Azul naturalmente aumenta a distância e a altimetria, mas também muda bastante a experiência do percurso.

Outro registro tem um nome muito mais simples, “Pedal passeio queijaria”, e talvez seja justamente essa simplicidade que represente bem uma parte dos pedais que gosto de fazer. Nem sempre é necessário criar uma grande justificativa para sair de bicicleta. Às vezes, existe um lugar para conhecer, alguma coisa para comer ou simplesmente uma estrada que ainda não percorremos. No caso desse pedal, a queijaria era o destino e a própria parada ajudava a dar sentido ao percurso. É uma maneira bastante agradável de conhecer o interior do Espírito Santo, especialmente quando o objetivo não é apenas treinar, mas passar algumas horas explorando a região.

Rotas no Strava:
Café no antigo Expresso 37    
Pedal passeio queijaria

Pedalar também é escolher onde parar

Depois de tantos quilômetros acumulados, percebi que a escolha de uma boa parada pode mudar bastante a experiência de um pedal. Em treinos mais estruturados ou em provas de longa distância, o planejamento é outro. A alimentação, a hidratação e o tempo parado precisam acompanhar o que foi previsto para aquele percurso. Já nos pedais de exploração, existe mais liberdade para escolher uma estrada, entrar em um caminho diferente ou simplesmente parar porque encontramos um lugar interessante.

São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo oferecem experiências muito diferentes para quem pedala, mas têm algo em comum: é possível construir rotas em que o destino faça parte da motivação para sair de casa. Um café na região metropolitana, uma parada em Macacos ou uma subida em direção às montanhas capixabas podem transformar um treino convencional em um programa para o dia. E não é preciso esperar uma viagem longa para fazer isso. Muitas vezes, basta escolher uma rota diferente da habitual e deixar algum espaço no planejamento para uma parada.

No fim, talvez seja essa a melhor combinação entre bicicleta e café: ter uma rota suficientemente planejada para saber onde estamos indo, mas não tão fechada a ponto de impedir uma mudança de planos no caminho. É esse tipo de pedal que continua interessante mesmo depois que o treino termina, porque a memória não fica apenas na distância percorrida ou nos números registrados no aplicativo, mas também nos lugares que passamos a conhecer de bicicleta.